Páginas

quarta-feira, 23 de junho de 2010

NEOQEAV

"Meus avós já estavam casados há mais de cinqüenta anos e continuavam jogando um jogo que haviam iniciado quando começaram a namorar. A regra do jogo era que um tinha que escrever a palavra "NEOQEAV" num lugar inesperado para o outro encontrar e assim quem a encontrasse deveria escrevê-la em outro lugar e assim sucessivamente. 
Eles se revezavam deixando "NEOQEAV" escrita por toda a casa, e assim que  um a encontrava era sua vez de escondê-la em outro local para o outro achar. Eles escreviam "NEOQEAV" com os dedos no açúcar dentro do açucareiro ou no pote de farinha para que o próximo que fosse cozinhar a achasse.Escreviam na janela embaçada pelo sereno que dava para o pátio onde minha avó nos dava pudim que ela fazia com tanto carinho."NEOQEAV" era escrita  no vapor deixado no espelho depois de um banho quente, onde a palavra  iria reaparecer depois do próximo banho. Uma vez, minha avó até desenrolou um rolo inteiro de papel higiênico para deixar "NEOQEAV" na última folha e enrolou tudo de novo. Não havia limites para onde  "NEOQEAV" pudesse surgir. Pedacinhos de papel com "NEOQEAV" rabiscado apareciam grudados no volante do carro que eles dividiam.Os bilhetes eram enfiados dentro dos sapatos e deixados debaixo dos travesseiros."NEOQEAV" era escrita com os dedos na poeira sobre as prateleiras e nas cinzas da lareira.Esta misteriosa palavra tanto fazia parte da casa de meus avós quanto da mobília.Levou bastante  tempo para eu passar a entender e gostar completamente deste jogo que eles jogavam.Meu ceticismo nunca me deixou acreditar em um único e verdadeiro amor, que possa ser realmente puro e duradouro.Porém, eu nunca duvidei do amor entre meus avós.Este amor era profundo.Era mais do que um jogo de diversão, era um modo de vida. Seu relacionamento era baseado em devoção e  uma afeição apaixonada, igual as quais nem todo mundo tem a sorte de experimentar. 
O vovô e a vovó ficavam de mãos dadas sempre que podiam.Roubavam beijos um do outro sempre que se batiam um contra outro naquela cozinha tão pequena.Eles conseguiam terminar a frase incompleta do outro e todo dia resolviam juntos as palavras cruzadas do jornal.Minha avó cochichava para mim dizendo o quanto meu avô era bonito, como ele havia se tornado um velho bonito e charmoso.Ela se gabava de dizer que sabia como pegar os namorados mais bonitos.Antes de cada refeição eles davam graças a Deus e bênçãos aos presentes por sermos uma família maravilhosa, para continuarmos sempre unidos e com boa sorte. Mas uma nuvem escura surgiu na vida de meus avós: minha avó tinha câncer de mama. 
A doença tinha primeiro aparecido dez anos antes.Como sempre, vovô estava com ela a cada momento.Ele a confortava no quarto amarelo deles, que ele havia pintado dessa cor para que ela ficasse sempre rodeada da  luz do sol, mesmo quando ela não tivesse forças para sair.O câncer agora estava de novo atacando seu corpo. Com a ajuda de uma bengala e a mão firme do meu avô, eles iam à igreja toda manhã.E minha avó foi ficando cada vez mais fraca, até que, finalmente, ela não mais podia sair de casa. Por algum tempo, meu avô resolveu ir à igreja sozinho, orando a Deus para zelar por sua esposa. 
Então, o que todos nós temíamos aconteceu. 
Vovó partiu. 
"NEOQEAV" foi gravada em amarelo nas fitas cor-de-rosa dos buquês de flores do funeral da vovó.Quando os amigos começaram a ir embora, minhas tias, tios, primos e outras pessoas da família se juntaram e ficaram ao redor da vovó pela última vez.Vovô ficou bem junto do caixão da vovó e, num suspiro bem profundo,começou a cantar para ela.Através de suas lágrimas e pesar, a música surgiu como uma canção de ninar que vinha bem de dentro de seu ser. Me sentindo muito triste, nunca vou me esquecer daquele momento. Porque eu sabia que mesmo sem ainda poder entender completamente a profundeza daquele amor, eu tinha tido o privilégio de testemunhar a beleza sem igual que aquilo representava."
Aposto que a esta altura você deve estar se perguntando: "Mas o que NEOQEAV significa?". Não está?


 "NEOQEAV" =  Nunca Esqueça O Quanto Eu Amo Você

terça-feira, 22 de junho de 2010

(L)

"Tudo o que sabemos de amor é que o amor é tudo que existe."
Emily Dickinson

domingo, 20 de junho de 2010

Música do dia - Luz dos olhos

Ponho os meus olhos em você se você está
Dona dos meus olhos é você, avião no ar
Um dia pra esses olhos sem te ver é como o chão do mar
Liga o rádio a pilha e a TV só pra você escutar...

A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora

Os meus olhos vidram ao te ver, são dois fãs, um par
Pus nos olhos vidros pra poder melhor te enxergar
Luz dos olhos, para anoitecer é só você se afastar
Pinta os lábios para escrever a tua boca em minha...

Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a Lua irradia a glória

E eu te chamo
Eu te peço vem
Diga que você me quer porque eu te quero também

Faço as pazes lembrando
Passo as tardes tentando lhe telefonar
Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando sem você desembarcar

Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro fusca lá fora

E eu vou guiando
Eu te espero, vem
Siga onde vão meus pés porque eu te sigo também

Eu te amo, oh
Eu te peço vem
Diga que você me quer porque eu te quero também...


Cassia Eller.

P.s: Juro que esse blog nao esta virando apenas para musicas,mas é que as vezes elas falam mais por mim do que minhas próprias palavras. Textos novos em breve. 


Bandolins


Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo e como se não fosse um tempo
em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

Como fosse um lar, seu corpo a valsa triste iluminava
e a noite caminhava assim
E como um par o vento e a madrugada iluminavam
A fada do meu botequim
Valsando como valsa uma criança
Que entra na roda, a noite tá no fim
Ela valsando só na madrugada
Se julgando amada ao som dos bandolins 

Oswaldo Montenegro

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eduardo e Monica

Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar

Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
Noutro canto da cidade
Como eles disseram

Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer

E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir
Festa estranha, com gente esquisita
- Eu não estou legal, não aguento mais birita
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
- É quase duas, eu vou me ferrar

Eduardo e Mônica trocaram telefone

Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo

Eduardo e Mônica eram nada parecidos

Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes
Do Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola, cinema, clube, televisão"

E, mesmo com tudo diferente

Veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia
Como tinha de ser

Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia

Teatro e artesanato e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa
Que nem feijão com arroz

Construíram uma casa uns dois anos atrás

Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram

Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília

E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação

E quem um dia irá dizer que existe razão

Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?


Qualquer semelhança, é mera coincidência.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem título

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. O relógio marca 01:52 de uma fria madrugada em uma sexta feira de lua minguante. Me levanto sonolentamente, fecho o caderno e apago a luz. Caminho lentamente de volta para a cama, com medo de tropeçar no velho par de all star jogado no meio do quarto e deito. Me encolho. com o desejo de que o calor da cama  e do edredom me levem a um lugar melhor do que a escuridão daquele tão solitário e frio cômodo. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. O relógio agora marca 01:58 e começo a adormecer profundamente. Quando dei por mim, estava em um lugar tão claro que era de doer os olhos. Esse lugar estava repleto de pessoas que passaram pela minha vida. Era tudo tão bonito. E quentinho...Não me lembrava de uma sensação mais prazerosa. Mas de repente, essas pessoas começavam a andar. Cada vez mais. Pra longe. Longe de mim. Eram como folhas secas em época de outono após uma ventania. Corro. Sem ter quem alcançar, sem nem ao menos onde chegar. Grito. Mas o mais alto que eu conseguia não era o bastante. Minha garganta ardia como fogo a 1000°C. Só então me rendo. Choro. Compulsivamente. Quem sabe assim, tudo poderia voltar a ser como era antes. Mas mais uma vez eu me engano e caio. Não por cansaço, mas por fraqueza. Olho em volta e não vejo ninguém. Só o clarão que já não me cegava mais. Me encolho. Com o desejo de poder ter alguém novamente. Solidão. E tudo voltou a ser frio e escuro. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. O relógio marcava 02:35. E nada mais fazia sentido. Noto meus olhos úmidos e o cabelo colado na testa pelo suor. Me perco nos pensamentos e adormeço novamente.
Dessa vez o lugar continuava escuro e frio. Muito frio por sinal. Meu dedo mínimo do pé parecia não fazer mais parte de mim, e meu nariz estava gelado, semelhante ao de um cachorro. Esfregava minhas mãos querendo gerar algum tipo de calor, mas era inútil. Me deparo com pessoas andando. Cada vez mais. Para perto. Perto de mim. Eram como roseiras em época de primavera. O grupo era consideravelmente menor do que o anterior. E ao se aproximarem de mim, trouxeram também um calor familiar e agradável, que me reconfortou de uma maneira tão singular e única. Foi então que percebi que nunca estivera sozinha de fato. Choro. Compulsivamente. Quem sabe assim as coisas poderiam continuar desse jeito para sempre? Mas na realidade, não estava me importando muito com isso. Não agora...
Abro os olhos.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. O relógio marca 09:40 e o quarto que era escuro e frio, agora é iluminado pela luz do sol de uma linda manha de sexta feira. Sou tomada por uma alegria imensa. É como se eu soubesse mesmo que tudo ficará bem. E ficará né? Bom, disso eu não sei, mas acredito muito que tudo tem o seu tempo certo para acontecer, e é só isso resta. Para mim, e para você.